terça-feira, 17 de março de 2026

Contos Ateus - O Cenógrafo de Deus


A igreja acabara com o teatro. Como podem falar da vida de um deus que não seja o próprio Deus em si? Tudo heresia. Teatro é proibido. Tantos profissionais foram expulsos do ambiente e entre eles, um velho artesão, de mãos calejadas que no fim das contas, não acreditava em nada que não pudesse ser esculpido em madeira ou misturado em um pote de tinta. Para ele, o mundo sempre foi uma questão de suporte e resistência. 

Por isso, quando os homens de túnicas pesadas e olhares gélidos o procuraram naquela manhã de sol forte, que se diziam “mensageiros do alto”, o homem viu apenas clientes exigentes em busca de uma ilusão mais convincente. Eles falavam em “majestade”, “temor” e “presença divina”, mas o que realmente queriam eram cortinas que caíssem no tempo certo, incensos que escondessem o cheiro do suor humano e uma acústica que transformasse o sussurro de um homem comum no estrondo de uma autoridade invisível.

Eles sabiam que a religião estava perdendo público. As pessoas estavam começando a olhar demais para a terra, para a fome de seus estômagos, para as guerras criadas em nome de coisas totalmente abstratas e para o cansaço de seus próprios braços. Era preciso “reencenar” o sagrado. E ninguém entendia melhor de reencenação do que aquele velho artesão, que passara a vida criando florestas de papelão e reis de gesso para os teatros da cidade. O que os sacerdotes propunham era o maior espetáculo de sua carreira: transformar o templo no palco definitivo, um teatro que, para funcionar, precisava negar que era teatro.

O velho aceitou, não por fé, mas por uma curiosidade quase cínica. Ele queria ver até onde a mímica humana poderia ir se tivesse um orçamento ilimitado e uma audiência sedenta por consolo. Enquanto os padres falavam do Logos, da palavra que se faz carne, o artesão pensava na carne que se faz figurino. Ele sabia que o “sagrado” era apenas uma questão de iluminação: uma luz vinda do ângulo certo pode transformar um pedaço de pau em um objeto de adoração, assim como a falta de luz pode transformar o pavor do trovão em um deus vingativo.

Na primeira noite, enquanto desenhava as plantas do novo altar, ele olhou para o prato de comida sobre a mesa. O cheiro do guisado era real. O calor do prato era real. Não havia nada de divino ali, apenas o resultado da caça, do fogo e do trabalho. 

Ele sorriu ao pensar que, em poucos meses, aquelas mesmas pessoas que comiam em silêncio estariam diante de sua cenografia, agradecendo a um fantasma abstrato pelo pão que suas próprias mãos haviam amassado. O espetáculo estava prestes a começar, e ele era o único que sabia onde ficavam as cordas que moviam os anjos.

O artesão passou as semanas seguintes mergulhado em tecidos que pesavam mais do que a consciência de um pecador. Tecidos que suprimissem a humanidade de quem os usava. Para o Sumo Sacerdote, ele escolheu um veludo carmesim, denso e impenetrável, adornado com fios de ouro que capturavam cada partícula de luz das velas. 

Ele sabia que, quando aquele homem subisse ao púlpito, o povo não deveria ver o indivíduo que tropeçava nas palavras ou que sentia dores nas articulações ao final do dia. O objetivo do figurino era apagar o homem e destacar o Personagem. “O figurino é a armadura do dogma”, pensava o velho, enquanto costurava camadas e mais camadas de pano. No teatro, o figurino ajuda o ator a viver; na religião, o figurino ajuda o homem a desaparecer para que a abstração tome o seu lugar.

Enquanto trabalhava, ele recebia as visitas constantes dos teólogos, os “diretores” daquela peça eterna. Eles traziam manuscritos cheios de regras, o tal Logos, que tentavam ditar cada movimento. Queriam que o artesão construísse um biombo que escondesse o altar durante a consagração, criando um mistério técnico. 

O velho ria por dentro. Sabia que o mistério era apenas uma questão de obstrução visual. Se você impede o público de ver a mecânica da cena, ele preenche o vazio com o milagre. É o truque mais antigo do palco: o que não se vê, teme-se; o que se teme, adora-se. Ele montou roldanas silenciosas e cortinas de fumaça feitas de resinas raras, garantindo que o “sagrado” tivesse o cheiro da distância e o aspecto do inacessível.

No fundo da nave da igreja, ele instalou o coro. Mas não era um coro para cantar a alegria da colheita ou a beleza do encontro, como ele via nas festas de rua. Era um coro treinado para a melancolia. As vozes deveriam ecoar nas abóbadas de pedra que ele mesmo ajudara a projetar para que o som não se dissipasse, mas que caísse sobre a cabeça dos fiéis como um peso físico. “A acústica da culpa”, ele batizou em segredo. Cada nota baixa deveria vibrar no peito das pessoas, fazendo-as sentir-se pequenas, minúsculas diante da vastidão do cenário. 

O teatro da igreja não queria a catarse grega, aquela que limpa e liberta; ele queria a submissão, aquela que mantém o público voltando domingo após domingo, pagando o ingresso da esperança com a moeda do medo.

Uma noite, um jovem assistente perguntou ao mestre por que ele se dedicava tanto a um cenário que servia para enganar as pessoas. O artesão parou de polir o candelabro de prata e olhou para o rapaz. 

 – Não é engano, meu jovem, é mimetismo – respondeu. – O ser humano tem pavor do silêncio do universo. Ele prefere uma mentira bem encenada a admitir que o trovão não tem voz. Eu estou apenas dando a eles o espetáculo que eles pediram com o olhar. Se eles preferem agradecer ao ouro que eu poli em vez de agradecer às mãos que plantaram o trigo, a culpa não é do cenário. É do público que esqueceu que é ele quem paga o roteirista.

O assistente não entendeu, mas o velho voltou ao trabalho, ciente de que estava montando a maior gaiola estética já vista, onde o pássaro ficaria preso por vontade própria, admirando as barras douradas da sua própria imaginação.

A noite da inauguração chegou com o peso de um julgamento. O artesão não se misturou às autoridades, nem ocupou os bancos de carvalho que ele mesmo havia lixado até que brilhassem como vidro. Preferiu o fosso das sombras, um recanto escuro atrás de uma das colunas laterais, onde podia observar o rosto da multidão sem ser notado. O que viu foi o início de um fenômeno que ele conhecia bem dos palcos, mas que ali ganhava contornos aterrorizantes: a suspensão coletiva da realidade.

As pessoas no lugar de pensarem que estavam num prédio; acreditavam que atravessavam um portal invisível onde deixavam para trás sua autonomia. Ao cruzarem o umbral, o cheiro da resina e o som abafado dos passos no mármore agiam como um sinal hipnótico. O público estava pronto para ser enganado, porque a verdade do lado de fora — o sol escaldante, a colheita incerta, a finitude da carne — era insuportável demais sem o brilho do cenário.

O ritual começou com uma precisão que faria inveja a qualquer mestre de cena. O coro iniciou o lamento planejado, e as vozes, amplificadas pela geometria das abóbadas, pareciam descer do teto como se o próprio ar estivesse ganhando consciência.

O artesão observou um camponês na primeira fila. O homem tinha as mãos deformadas pelo trabalho na terra, unhas encortiçadas e a pele queimada pelo sol. Aquelas mãos haviam arrancado o sustento do solo seco, haviam lutado contra a sede e o cansaço. Mas, no momento em que o Sumo Sacerdote surgiu sob a luz focal que o velho havia projetado para parecer uma aura, o camponês escondeu as próprias mãos, envergonhado de sua humanidade. Ele se ajoelhou diante do veludo e do ouro, pedindo permissão para existir a um personagem que não passava de um homem comum vestido com as sobras da oficina do artesão.

A encenação atingiu seu clímax quando as cortinas de fumaça foram liberadas. O incenso, saturado de substâncias que entorpeciam levemente os sentidos, criou uma névoa que transformava o altar em uma ilha flutuante. O artesão viu o medo nos olhos das crianças e o êxtase no rosto dos velhos. 

Ninguém ali agradecia à chuva, à semente ou ao vizinho que ajudara na aragem. Todos direcionavam suas preces para o vácuo dourado que ele havia construído. Era a antropomorfização completa: o medo humano do caos fora capturado, colocado dentro de um figurino suntuoso e batizado com o nome de Deus. O velho sentiu um calafrio. Ele percebeu que a religião era o único teatro onde o público acreditava que o vilão era ele mesmo e o herói era uma abstração que exigia sacrifícios reais em troca de promessas etéreas.

Do seu esconderijo, ele viu o momento da oferta. O povo, que mal tinha o que comer, entregava suas moedas para manter o brilho das velas e a manutenção do luxo que os oprimia. O “teatro vazio” estava funcionando perfeitamente. As repetições dos cânticos e as mímicas dos rituais haviam anestesiado a capacidade de percepção daquelas pessoas. Elas não viam as roldanas, não sentiam o cheiro da tinta fresca, não percebiam que o “milagre” era apenas o efeito de um ângulo de visão bem calculado. 

O artesão apertou o próprio estômago, sentindo a fome daquela gente ser devorada pela imensidão do cenário. Ele percebeu, com uma amargura que nenhum vinho poderia apagar, que ele não tinha construído um templo, mas uma máquina de esquecimento, onde o homem adora a própria sombra e chama isso de salvação.

Ao final do espetáculo, quando a fumaça começava a se dissipar e o público se arrastava para fora, embriagado de culpa e consolo, o artesão saiu de sua sombra. Ele se aproximou do camponês que vira na primeira fila, aquele cujas mãos eram mapas de cicatrizes e terra. O homem ainda tinha os olhos úmidos, fixos no altar agora vazio. O velho tocou-lhe o ombro, sem o efeito da solenidade de um clérigo, claro, mas com a aspereza de quem conhece a matéria.

– É uma bela peça de madeira, não é? – sussurrou, apontando para o ídolo central. – Levei três meses para lixar o cedro e passar o verniz que lhe dá esse brilho sobrenatural. Se você olhar de perto, verá que a base tem um leve defeito, um nó que a tinta não conseguiu esconder totalmente.

O camponês recuou, como se tivesse sido atingido por uma blasfêmia física. Olhou para o artesão com um misto de pavor e fúria. Para aquele homem, admitir que o sagrado tinha um nó na madeira era admitir que sua própria dor não tinha um propósito divino. “Não fale assim”, sibilou o fiel. “O que vi ali foi a glória, não a madeira. Você fala como um homem que só enxerga o chão.” O artesão sorriu, uma expressão triste que vincou ainda mais seu rosto cansado.

– Eu enxergo o chão porque é dele que vem o seu pão, meu amigo. Eu enxergo a madeira porque fui eu quem a cortou. O que você chama de glória é apenas o efeito da luz que eu posicionei ali em cima, naquele ângulo de quarenta e cinco graus. Se eu apagar aquela vela, o seu deus volta a ser apenas um tronco inanimado.

A resistência do fiel era feroz. Ele não queria a verdade; queria o cenário. A verdade era que ele estava sozinho na lida, enfrentando a seca, enquanto o ouro da igreja era pago com o suor que faltava em sua própria mesa. A religião era o teatro que lhe permitia suportar o horror de sua própria insignificância. Se o artesão provasse que tudo era encenação, o camponês teria que encarar o vazio de sua existência sem o roteiro escrito pelos sacerdotes. “Você é um homem amargo”, disse o camponês, apressando o passo para a saída. “Prefiro acreditar no milagre da luz do que na sua mão que segura o fósforo.” O artesão observou-o partir, percebendo que o público era o cúmplice mais dedicado do diretor. Eles protegiam a mentira como se fosse a própria vida, porque, para muitos, a mentira era a única coisa que lhes restava.

O velho voltou-se para o altar deserto. Subiu os degraus de mármore, sentindo o frio da pedra através das solas gastas de seus sapatos. Ali, no centro do palco sagrado, o cheiro do incenso era sufocante. Ele tocou a túnica de veludo que o sacerdote deixara sobre uma cadeira. Por baixo do dourado, as costuras eram grosseiras; por trás da pompa, havia apenas pano e linha. Ele percebeu que a história de horrores que a religião contava era baseada em um paradoxo cruel: o homem criava o espetáculo para fugir de si mesmo, e depois passava a vida adorando a própria fuga. 

Ele sentou-se no chão do presbitério, um intruso em sua própria criação, e começou a desamarrar uma das cordas que sustentavam o dossel. Por um momento, sentiu vontade de derrubar todo o cenário, de mostrar as tábuas nuas e os potes de tinta vazios. Mas sabia que, mesmo se o fizesse, o povo voltaria no dia seguinte para adorar os escombros, inventando um novo dogma para justificar a ruína.

Na manhã seguinte, o artesão não voltou ao templo; deixou para trás as ferramentas de polimento, os potes de purpurina e os rolos de veludo carmesim. Deixou também o pagamento que os homens de túnica lhe ofereceram; não queria que o suor de suas mãos fosse cúmplice do ouro que comprava o silêncio da razão. Ele caminhou para longe das abóbadas de pedra e dos ecos calculados, buscando o único lugar onde a representação não era uma máscara para o poder: a praça do mercado, onde a vida acontecia sem ensaios. Ali, entre o grito dos feirantes e o cheiro do suco fresco, ele viu o que o teologismo tentava esconder com tanta fumaça. Viu pessoas dividindo o pão, rindo de piadas obscenas e cuidando de feridas reais. Não havia liturgia, mas havia presença. Não havia deuses, mas havia homens.

Ele sentou-se em um banco de madeira tosco, um que não fora lixado por ele e que ainda guardava o calor do sol. Pediu um prato de comida simples, o mesmo que o camponês do dia anterior talvez estivesse comendo em sua casa humilde. Ao sentir o sabor do tempero e o peso da colher em sua mão, o velho compreendeu a maior das lições: a verdadeira ontologia não reside no que imaginamos, mas no que sentimos com os sentidos que temos. 

A comida não era um “dom” vindo do teto da igreja; era o resultado da terra que insistia em brotar e da mão que insistia em colher. Ele fechou os olhos e, pela primeira vez em décadas, não imaginou um cenário. Ele apenas existiu. O teatro vazio da religião havia perdido o seu ator mais talentoso, pois o artesão agora preferia a verdade do grão de areia à mentira da montanha de gesso.

O sol começou a se pôr, pintando o céu com cores que nenhum de seus pigmentos conseguiria imitar. O artesão percebeu que a religião só existe porque o teatro é a nossa língua materna, mas que o erro foi transformar a mímica em mordaça. O homem adora o homem porque não tem outra escolha, mas o faz de forma torta, olhando para o altar quando deveria olhar para o lado. “Deus é o personagem que criamos para não termos que admitir que somos nós que seguramos o pincel”, pensou ele. Levantou-se, sentindo o corpo cansado, mas leve. Ele não precisava mais criar deuses de madeira para suportar o medo do silêncio; o barulho da vida real era música suficiente.

Ao caminhar de volta para sua pequena oficina, o velho passou em frente ao templo. Os sinos dobravam, chamando o público para mais uma sessão do espetáculo repetitivo. Ele não sentiu raiva, apenas uma profunda e calma clareza. Ele sabia que as cortinas continuariam subindo e descendo por muitos séculos, alimentadas pela história de horrores que os homens contam para si mesmos para não encarar o vazio. Mas ele, o cenógrafo que conhecia cada prego e cada farsa, estava finalmente aposentado. O espetáculo havia acabado para ele. O teatro agora era outro: era o palco da rua, a cena do prato na mesa e a representação honesta de ser, simplesmente, um homem entre homens. Sem deuses, sem mestres, apenas o brilho do sol real sobre a pele de quem, finalmente, abriu os olhos.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Contos ateus: A máscara que devorou o rosto




Ato 1: O Observador e a Anatomia do Medo

No vale de arenito, uma pequena tribo se desenvolvia. Em meio ao verde denso e à abundância de caça, um membro se destacava nesta nossa antiga história. Kaelo não era o mais forte do grupo, nem o mais veloz. Ele, na verdade, carregava uma pequena mácula no braço, que o impossibilitava de executar as mesmas tarefas que os outros membros, como o robusto Baruk desempenhava. Por estar quase sempre estático, contribuindo pouco com o esforço braçal dos seus, ele, de longe, começara a observar o comportamento alheio. Capturava seus trejeitos, seus modos de andar e de falar. Nas noites escuras, próximo à fogueira, ele os reproduzia, encenava graça e todos riam. Era o que restava quando a força bruta falhava: ele era o olhar.

Nesses primeiros dias da humanidade, os elementos da natureza aterrorizavam a todos. Mesmo os mais resistentes se enfiavam nas entranhas da caverna ao menor sinal de trovão; Kaelo agia da mesma forma. Mas, por se manter mais afastado dos outros, acabara por notar detalhes que os companheiros não conseguiam. Na parte mais externa da caverna, com o corpo tenso, mas os olhos fixos no horizonte, enquanto ouvia Baruk lá de dentro, uma série de sons guturais que significavam “A Ira”, “O Gigante”, “Escondam-se”. Para Baruk e para todos, o trovão era uma entidade viva, um ser invisível que esmagava as nuvens com punhos de pedra. Eles choravam e batiam no peito, uma reação instintiva ao barulho.

Ainda na parte mais externa da caverna, o coração de Kaelo batia forte. Ele sentia no seu peido, na ponta dos seus dedos a pulsação do que ele não entendia ser os batimentos cardíacos e nesse frenesi ele começa a perceber um padrão em cada estrondo vindo não se sabe de onde, mas certamente de cima. Ele viu o clarão — um chicote de luz prata que cortou o céu — e, em vez de se encolher, ele começou a ver que depois de algumas batidas fortes do seu coração.

Um, dois, três... sete. No sete, o estrondo veio, fazendo as pedras vibrarem sob seus pés. Novamente outro clarão. Sete batidas depois… Estrondo. Na terceira vez que ocorreu, ele não sentiu medo; sentiu uma estranha clareza, repetindo a sequencia, novamente, sete batidas. Ele percebeu que o mundo tinha uma engrenagem. O “Gigante” de Baruk era, na verdade, um intervalo de tempo.

Naquela noite, a chuva deu trégua e a fogueira central foi acesa. A tribo ainda estava trêmula. Kaelo observava o jogo de sombras que as chamas projetavam nas paredes curvas da caverna. Ele viu sua própria sombra se alongar, tornando-se um monstro que dançava ao movimento das chamas. Ele moveu o braço lentamente e viu a sombra obedecer. Com sua vivência na mímica dos outros, feita anteriormente, a semente do teatro brotou em sua mente: ele percebeu que a imagem na parede era mais poderosa que o seu próprio corpo de carne e osso.

Gritou, granindo sons irreconhecíveis e se levantou. O silêncio caiu sobre o grupo, quebrado apenas pelo estalar da madeira queimando. Kaelo não falou mais. Começou a caminhar ao redor do fogo, inclinou a cabeça, os olhos fixos em um ponto invisível no alto e começou a imitar o som do trovão com a garganta, um rosnado rítmico que crescia e diminuía exatamente como a tempestade que passara.

Baruk e os outros, antes sorridentes e mais tranquilos, lembraram da tempestade. Recuaram. Eles sentiram que o homem que “trouxera” a tempestade para dentro da caverna. Kaelo a estese do controle técnico. Ele sabia que estava atuando, mas via, pela primeira vez, que para quem assiste, a representação, naquele momento era a única verdade que importava. Ele era o pai da encenação e o palco, o chão de terra batida.



Ato 2: A Dramaturgia da Ausência

A morte era um fato mudo para a tribo. Quando um dos seus parava de respirar, o corpo era deixado para trás ou coberto com pedras, e o medo daquela “paralisia definitiva” pairava sobre o grupo por luas a fio. Kaelo percebeu que o medo nascia da falta de uma narrativa. O silêncio da morte era um vácuo que ele poderia preencher com imagens.

Certa manhã, um jovem chamado Lhuan não acordou, vítima de uma febre que o consumira há dois dias. Enquanto a mãe de Lhuan uivava de dor, um som animal, visceral e sem forma, Kaelo aproximou-se do corpo. Ele não chorou. Ele observou a rigidez dos dedos, a palidez da pele. Em sua mente, ele não via um espírito partindo, mas uma cena que precisava de um clímax.

Ao cair da noite, com a fogueira alta, Kaelo iniciou a sua primeira grande encenação sobre o invisível. Ele contou o que aconteceu com Lhuan, atuando o que aconteceu. Pintou o rosto com cinzas brancas, tornando sua face uma máscara de osso, entrou no círculo de luz da fogueira com passos lentos, simulando a febre do jovem, mas adicionou um elemento técnico: ele começou a lutar contra um inimigo que ninguém via.

Kaelo golpeava o ar, desviava-se de ataques imaginários e, finalmente, soltou um grito que não era de dor, mas de reconhecimento. Ele olhou para o topo da caverna e estendeu a mão, como se algo gigante o estivesse puxando. A plateia — pois era isso que a tribo havia se tornado — parou de respirar. O uivo da mãe de Luan cessou, substituído por um espanto hipnótico.

Naquela noite, Kaelo não deu conforto à tribo; deu um espetáculo. Ele transformou uma morte biológica em uma “viagem épica” do jovem que não mais voltaria para os braços de sua mãe. A estese era dele: o prazer de ver que, através do gesto e do ritmo, ele podia dar sentido ao caos. Mas o efeito no público foi o êxtase perigoso. Eles não saíram daquela peça sentindo-se mais vivos; saíram sentindo-se pequenos diante do “Invisível” que Kaelo acabara de criar com os seus músculos. O teatro havia gerado o mito, e o mito já começava a cheirar a religião.



Ato 3: A Queda da Deusa

Até então, a tribo era guiada pela figura da Mãe-Terra, representada por pequenas figuras de argila com ventres fartos que as mulheres moldavam. Era uma divindade do “aqui e agora”, ligada à colheita e ao sangue menstrual. Kaelo via nisso uma limitação. A Terra era democrática demais; todos pisavam nela, além disso, as outras deusas dominavam tudo. Era a deusa da mata, do rio, da cura. Para ter o controle total da narrativa, ele precisava de um Deus que estivesse onde ninguém pudesse tocar: o Céu.

O momento da transição veio com o parto de Mira. Kaelo sabia que Mira era fraca e que o nascimento seria difícil. Ele preparou seu veneno: uma mistura de ervas que, em doses pequenas, causavam letargia e confusão. Secretamente, ele misturou a erva na água que Mira bebia. O parto, que deveria seguir o ritmo da natureza, tornou-se um pesadelo de paralisia.

Enquanto as mulheres clamavam pela Deusa da Terra, Kaelo entrou na tenda. Ele não era um curandeiro; mas sabia que seu papel naquele palco seria a diferença entre o que os outros acreditavam e no que ele podia fazer acreditar. Mesmo que fosse algo abstrato e inventado do nada. Ele declarou que a Terra estava “irada” e que a Deusa de argila não tinha poder contra o “Sopro do Pai do Raio”. Sob a luz de tochas estrategicamente posicionadas para que sua sombra parecesse divina, ele realizou manobras físicas que conhecia — pressão no ventre e higiene — e “puxou” a criança para a vida.

Ele ergueu o recém-nascido, mas não o entregou à mãe. Ele o ergueu para o teto da caverna. “O Pai deu a vida!”, ele bradou. A mentira era perfeita. Ele sabotara a biologia para vender a teologia. Ao fazer isso, ele retirou a divindade do campo da subjetividade feminina e a jogou no campo da abstração masculina. A religião política acabava de nascer, e sua primeira vítima foi a verdade da terra.



Ato 4: A Caixa Preta e o Dogma

Com o tempo, Kaelo passou a ser admirado por alguns da sua vivência, não todos, mas já era suficiente para continuar suas ações de poder. Apenas da fogueira não era mais suficiente para suas performances; ele precisava de um cenário permanente. ordenou que a parte mais profunda da caverna fosse isolada por peles de grandes animais. Só ele e seus “ajudantes” — jovens que selecionou não pela força, mas pela capacidade de guardar segredos — podiam entrar lá. Ele criara, assim, os bastidores.

Lá dentro, ele aprimorou a técnica. Descobriu minerais que, lançados ao fogo, mudavam a cor das chamas para verde ou azul. Aprendeu que o eco da caverna podia ser manipulado se ele falasse dentro de uma bacia de pedra. O que a tribo ouvia do lado de fora não era mais a voz de um homem, mas um rugido metálico e sobrenatural.

O teatro utilitário, que servia para ensinar a caçar, fora completamente sequestrado. Kaelo estabeleceu o Dogma: a peça agora era fixa. Se alguém tentasse olhar por trás das peles de animais, era punido com o exílio ou a morte “em nome do Deus”.

Ele percebeu que a religião era, essencialmente, um teatro que se recusava a baixar a cortina. Enquanto nessa arte o espectador sabe que o ator vai tirar a máscara e ir para casa; no sistema de Kaelo, a máscara era colada ao rosto com o sangue do medo. Ele via os trabalhadores entregarem as melhores carnes para o “Deus” (que ele e seus ajudantes comiam em segredo) e sentia um prazer gélido. Ele não era mais um contador de histórias; ele era o dono da realidade alheia.



Ato 5: A Separação dos Mundos

A estrutura social da tribo mudou drasticamente. Kaelo não precisava mais caçar ou coletar. Ele era o Diretor, o Sacerdote Supremo. Ele criou a ideia de “Pecado”, do “erro” — que nada mais era do que o descumprimento do roteiro que ele escrevera. Se alguém questionava por que o Deus do Raio exigia tanto esforço, Kaelo encenava uma nova “tragédia”: um desabamento forçado ou um incêndio “divino” provocado pelos seus iniciados.

O Abstrato agora dominava tudo. O homem não trabalhava mais para si ou para a Terra; trabalhava para o “Herói Celestial”. Kaelo via a população sofrer, os corpos curvados pelo trabalho pesado de erguer totens e monumentos para o céu. Ele via a dor, mas não sentia empatia, pois em sua mente de ateu técnico, aqueles homens eram apenas figurantes em sua grande produção.

Ele começou a separar as pessoas: os “Puros”, que seguiam suas marcações de cena, e os “Ímpios”, que ainda mantinham laços com a antiga subjetividade da terra. O teatro, que nasceu para unir o grupo na mímica da sobrevivência, agora era a cunha que dividia a humanidade. A religião tornara-se o mecanismo de controle mais eficiente da história, pois transformava o escravo no vigia da própria corrente, acreditando que o peso do ferro era uma bênção.



Ato 6: O Eco das Eras

O tempo, para Kaelo, tornou-se uma linha contínua de repetições. Ele via o seu sistema se expandir. O que começou em uma caverna agora se preparava para dominar cidades e impérios que ele nem podia imaginar. Ele previa que seus sucessores usariam mantos de seda e coroas, mas o truque seria o mesmo: a luz, o som, o medo da morte e a promessa de um ato final glorioso.

Ele pensava nas religiões que viriam. O Judiaismo com sua lei de ferro e seu Deus invisível e ciumento — o ápice do Abstrato. O Catolicismo com suas missas que são, tecnicamente, performances operísticas de sacrifício. O Islã com sua submissão absoluta ao roteiro escrito. Até o Budismo, que em sua essência tentava fugir da dor, acabaria cercado de ritos e estátuas de ouro, aguardando a encarnação que jamais viria.

Todas elas tinham o mesmo DNA: o sequestro da estese. Em vez de permitir que o homem sentisse a beleza do mundo por si mesmo, a religião exigia que ele sentisse através do filtro do Sacerdote. O teatro fora transformado em um tribunal permanente. A população continuaria trabalhando até morrer, entregando sua energia para deuses que não passavam de personagens criados por homens como Kaelo, sentados em alguma caverna escura do passado, contando os segundos entre o raio e o trovão.


Ato 7: A Lanterna de Kaelo

Kaelo estava velho. Seus olhos, que viram o que ninguém queria ver, estavam cansados. Ele se sentou sozinho à beira da fogueira, agora um homem rico em posses, mas pobre em verdade. Ele olhou para a estatueta da Vênus de argila que ele mesmo quebrara há décadas. Ele a pegou e sentiu a textura da terra. Por um momento, ele sentiu a verdadeira estese: a conexão simples, sem máscaras, com a matéria.

Ele percebeu o tamanho do seu crime. A arte deveria ter sido a saída. O teatro deveria ter sido o lugar onde o homem ensaia a sua liberdade, não a sua prisão. Ele vira pessoas chorarem diante de suas encenações, mas não era o choro libertador da música; era o choro desesperado da servidão.

O sacerdote sussurrou para as chamas, mas não havia nenhum deus para ouvi-lo. Ele sabia que estava sozinho. “O sagrado é o túmulo da beleza”, pensou. Ele imaginou um futuro onde um homem pudesse ouvir uma música ou ver uma peça e sentir o êxtase da beleza sem a necessidade de se ajoelhar. Um mundo onde o palco fosse reconhecido como palco, e a vida fosse reconhecida como o único espaço real de existência.

Kaelo apagou a fogueira com um punhado de terra. As luzes se apagaram. No escuro total, ele deu o seu último comando para a posteridade, uma fala que ninguém ouviu, mas que ecoaria em cada templo construído pelo homem:

— A peça acabou, seus tolos. Por que vocês ainda não foram para casa? 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Contos Ateus - O rosário que não se curvou.

 O Rosário que não se curvou



Em homenagem a Júlio César de Melo e Souza (Malba Tahan)

Uma das maiores mentiras espirituais que a religião criou foi a necessidade de se existir um rosário ou, nos termos cristãos do Brasil, o terço. Ele é uma ferramenta matemática, mas a religião, com sua negação à realidade e a sacralização do abstrato, modificou sua função. Esta alegoria é a história.

Há muito tempo, nas terras onde o sol parece cobrar um imposto sobre a vida, Al-Zahir não confiava em deuses para proteger seu sustento, embora dobrasse os joelhos para Shamash por puro costume de sobrevivência. Ele confiava no peso. No peso das pedras que carregava em um pequeno alforje de couro. Coisa que aprendera com seus antepassados, que guardavam as pedras em uma pequena barroca perto da entrada dos animais na cerca, mas que, com o tempo, resolveram usar em bisacos ou pequenas bolsas, pois assim, se saberia exatamente quantos animais tinham e as pedras não podiam serem roubadas.

Cada ovelha de sua criação tinha um duplo mineral. Uma pedra de quartzo, que ele chamava de xexo (seixo) para cada animal adulto; uma semente de tamarindo para cada cordeiro. Para não se confundir com cada tipo de seleção, primeiro ele separou os alforjes, mas depois percebeu que acabavam se misturando. Assim, ele furou cada pedra e cada semente, colocando um cordão de cânhamo. Forte, fino e resistente. Assim, se algum animal nascia, morria, era vendido, Al-Zahir poderia colocar ou retirar a pedra com facilidade, pois o fio aguentava os nós e passadas das pedras por si, além de, aparentemente, deixar o pastor mais tranquilo, ao ir passando as contas de pedras ou sementes nas suas mãos, com os tac!, tac!, tac!, das pedras batendo entre si.

Quando o sol se punha em um horizonte cor de cobre, Al-Zahir agachava-se na areia e fazia o deserto falar em números. Movia uma pedra para a direita:

— Esta é a fêmea que manca.

Movia outra:

— Este é o macho que lidera.

Idris, seu filho mais velho, já ajudava ao pai e conhecia o fio com contas, mas não entendia ainda a separação das pedras.

— Pai, por que furas as sementes?

— Para que o vento não roube a contagem, meu filho. A memória é volátil como a areia. O fio de cânhamo que passa por este furo é o que amarra a realidade à minha mão.

Idris sorria. Para ele, o colar que o pai enrolava no pulso e depois colocava na bolsa era um registro. Se um lobo levava uma ovelha, o pai retirava uma conta. Se uma cria nascia, ele furava uma nova semente com um estilete fino de bronze. Era uma aritmética tátil. Um mundo onde 10 menos 1 era uma perda física, um buraco no fio, uma dor no estômago.

Mas havia Malik, o mais novo. Malik, que vivia mais dentro da casa e ia mais vezes à cidade, para ajudar a mãe e aos tios com as compras e as idas ao templo de Shamash, via o pai segurando o cordão e fechando os olhos enquanto os dedos deslizavam pelas contas, o pai não estava contando animais. Estava sussurrando ao invisível.

— Bendito seja o deus Samash, que mostra as coisas boas ao meu pai — pensava.

Um dia, a tragédia veio sob o disfarce de homens armados. Bandidos das dunas levaram metade do rebanho sob o aço das cimitarras. Al-Zahir, envelhecido dez anos em uma única noite, sentou-se à porta da tenda, em silêncio e tristeza, desamarrou o cordão original, agora longo demais e frouxo. Com as mãos trêmulas, retirou as pedras correspondentes aos animais roubados. Sobrou um círculo pequeno, que cabia justo em seu pulso. Ele deixou o alforje de lado. Não era mais necessário. Seus animais, agora, cabiam em apenas duas voltas em sua mão.

Ele passava as poucas pedras entre os dedos e falava repetidas vezes, em tom baixo. “Vinte e duas... vinte e duas...”, murmurava. Mesmo assim, continuou trabalhando e cuidando do seu rebanho.

— Ele está pedindo a Shamash que os animais voltem — sussurrou Malik para o irmão. — Veja como ele acaricia as pedras. É uma súplica.

— Não seja tolo — respondeu Idris, com o rosto endurecido. — Ele está recalculando a fome. Ele está sentindo o peso do que lhe resta para saber se sobreviveremos ao inverno. Ele conta o que sobrou. Não há espírito ali, apenas subtração.

A natureza, porém, é indiferente tanto à lógica quanto à fé. Uma tempestade de verão, rara e violenta, rasgou o céu sobre o curral. Um único raio, um chicote de luz branca, atingiu o solo seco. O fogo e a descarga elétrica não escolheram: matou o que restava do rebanho.

Al-Zahir não se moveu. Encontrou os animais carbonizados sob a chuva e o cheiro de queimado que saia dos animais. Ele voltou para a tenda e sentou-se. Seus olhos ficaram vidrados, fixos no nada. Seus dedos, porém, não paravam. Eles giravam o pequeno rosário de pulso. As pedras batiam umas nas outras com um estalido seco. Tac! Tac! Tac!

Ele contava o vazio. Contava o que não existia mais.

Para Idris, o pai havia enlouquecido porque a conta não fechava. O zero era um número impossível de ser segurado entre os dedos. Para Malik, o pai estava em um transe místico tão profundo que já não pertencia a este mundo; ele estava tentando convencer o deus a trazer as almas das ovelhas de volta do reino dos mortos.

Alguns animais ainda foram criados após essa trajédia, mas Al-Zahir nunca mais deixou aquelas contas fora do seu pulso. Quando morreu, segurando o cordão com tanta força que os nós ficaram marcados na palma da mão, os filhos herdaram o conhecimento sobre o objeto. Mas este já estava partido na mente deles.

Idris pegou as pedras do pai e as levou para uma mesa de madeira. Ele não queria um círculo. Ele queria linhas. Ele esticou um fio paralelos em uma moldura de cedro. Na primeira linha, colocou seis pedras, cinco para a conta de uma mão e uma para contar com a outra mão as pedras que representavam unidades. Quando não dava mais para contar essas unidades, ele criou um segundo fio, da mesma forma, contando o que seriam as dezenas. Sua criação cresceu. Na terceira, ele criou as centenas. Ele percebeu que, se movesse uma pedra na linha de cima, ela valia por dez de baixo. Ele criou o Ábaco. Ele não precisava mais sentir o animal; ele precisava processar a grandeza e assim, ensinou a outros como fazer aqueles cálculos mais complexos também. Sua mente se tornou uma máquina de prever colheitas, impostos e rotas. Ele não buscava milagres, buscava a eficiência.

Malik, por outro lado, pegou a ideia do cordão circular e a expandiu. Ele buscou pedras mais bonitas, mais lisas, que acalentavam o coração ao toque, como os gregos faziam com suas contas de preocupação. Ele reuniu outros homens que, como ele, tinham uma lógica sagrada, mas cheias de medo.

— Meu pai falava com o céu através dessas pedras — dizia Malik aos seus seguidores. — Cada conta é uma oração. Se repetirmos o nome de Shamash 150 vezes, o que foi perdido voltará em outra vida.

Ele transformou a ferramenta de contagem em um grilhão espiritual. Enquanto Idris e seus aprendizes, com o passar do tempo, usava as pedras para construir cidades e sistemas que um dia seriam feitos de silício e eletricidade — as máquinas que calculariam o universo —, Malik usava as mesmas pedras para criar um ritmo que anestesiava a dúvida.

Ao final das contas, o mundo dividiu-se: de um lado, os descendentes de Idris e seus aprendizes, cujos ábacos se tornaram processadores computacionais de bilhões de cálculos por segundo; do outro, os de Malik, que ainda giram círculos de pedra, esperando que a repetição de um número em uma oração, mude a realidade que eles se recusam a medir.


terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Contos ateus - Terça da raiz

 Terça da raiz

Em homenagem a 

Euclides da Cunha e 

Câmara Cascudo



A terra do sertão não era só seca, era sábia. Sabia guardar no ventre a memória de todas as chuvas, e na pele rachada, o mapa de todos os sóis. Zé Baiano, que não era baiano mas cearense e ainda por cima, morava no sertão potiguar, sentiu a primeira mudança pelo cheiro do cardeiro, ou mandacaru em muitos estados do Nordeste. A flor branca, que antes anunciava a chuva com um perfume doce e úmido, agora murchava no caule com um odor azedo, de coisa cozida no próprio ar.

O gado já estava magro no pasto ralo, quando tinha, pois Zé tinha que complementar com ração comprada. Cada boi, para ele, só o couro e osso, na verdade, tinha história. A história do seu avô, que conquistou aquela terra com o suor e o sangue do gado de corte. Era a lembrança do primeiro bezerro que ele mesmo ajudou a parir, o calor do animal novo tremendo entre suas mãos calejadas. E ele sabia que churrasco de domingo não era só comida, era o respeito da família reunida em volta da mesa. No fogão à lenha, o estalar da gordura no braseiro era algo que estava além do cheiro e do sabor que vinha daquela carne. Ele conhecia cada animal que era sacrificado para o alimento familiar.

Mas agora, quando o vento quente do leste trazia o cheiro da queimada longe – não a queimada boa, de roçar para plantar, mas a queimada doida, que comia a caatinga inteira sem dó – Zé Baiano sentia um nó na alma. O céu, cor de ferrugem, não parecia mais a abóbada de Deus. Parecia o teto de um forno.

Seu reverendo sempre dizia:

— Confie em Deus, ele sabe a hora certa de trazer a chuva. Tudo é no tempo Dele.

Na cidade, a neta dele, Ana, estudava. Já distante dos antigos livros da biblioteca física, ela estudava por computador, com textos que muitas vezes, sua família não compreendia: medir o “fluxo de carbono”, o “albedo da superfície”, palavras que para o avô soavam como reza de outro santo desconhecido. Ela vinha todo fim de semana, trazendo pão doce, lasanha e gráficos.

— Vovô, o aquecimento global tem muitas culpas, mas uma delas é a mais perigosa — dizia, apontando para linhas que subiam como cobras venenosas num papel

— O metano do gado. É ele que segura o calor, feito um cobertor grosso em cima da gente. E a água que eles bebem… daria para plantar feijão que alimentaria dez vezes mais gente.

Zé Baiano a escutava, mascando seu fumo de rolo em silêncio. Olhava para os papéis, depois para o pasto, depois para as mãos dele, calejadas de lidar com a vida que ele agora aprendera, estar matando o chão. Uma contradição que doía mais que espinho de sodoro no meio do peito do pé.

O padre da cidade, homem bom de coração mas de ideias antigas, pregava no domingo:

— A seca é prova! É o joio a ser separado do trigo! Cabe a nós, ovelhas fiéis, confiar no Divino Pastor que nos levará a pastos verdejantes!

As ovelhas de carne e osso, na porta da igreja, baliam fracas, a procura de uma sombra que já não havia.

Ana, após a missa, falava baixo no ouvido do avô:

— Pastor nenhum vai fazer chover se a temperatura do oceano continuar subindo, vovô. É física. Não é castigo, é consequência. E tem mais. Veja que ele fala que é no tempo de Deus. Se chover hoje, amanhã ou apenas daqui a dois anos, no dia que chover, o padre vai falar que é uma graça de Deus, seja quando for e o senhor e todos vão agradecer. No entanto podemos fazer algo agora e melhorar a vida de todos. Ou não teremos mais tempo mais tempo.

Indeciso entre a fé e o que a neta falava, Zé só dizia que queria esperar mais um pouco.

A crise veio com o gado morrendo. Não de uma vez, mas devagar, uma vida por dia definhando sob o sol inclemente. Zé Baiano assistiu ao bezerro preferido dele, o Pintado, cair de lado, os olhos vidrados de um sofrimento mudo. Foi ali, naquela poeira quente misturada com o cheiro da morte, que a fé dele rachou. Não a fé em Deus, que ele ainda acreditava estar em algum lugar, mas a fé no modo de vida que herdou. Rezar não traria o Pintado de volta. Rezar não faria brotar capim da terra assada.

Ele chamou Ana

— Me ensina essa tua conta toda.

Ana trouxe mais gráficos e outras histórias tão tristes quanto o pintado morto no pasto, já com os urubus voando ao redor do bicho. Contou do pantanal que era alagado e hoje o ciclo já não fechava mais; dos peixes morrendo em água quente e sem oxigênio. Falou dos seringueiros da Amazônia, que conheciam o ritmo da floresta melhor que qualquer cientista, e que viam aquele ritmo perder o compasso.

O mundo de Zé Baiano, que era o seu sertão, o seu gado, seu céu, se alargou. Ele viu que seu boi magro no semiárido potiguar tinha parentesco com a fumaça que escurecia o céu de Rondônia, e com o rio Paraguai, mais raso a cada ano. E viu, sobretudo, que a salvação não viria do céu e sim do chão. Das escolhas.

Zé Baiano foi à feira. Não para vender ou comprar, mas para olhar. Olhou para as mãos das mulheres que vendiam abóbora, maxixe, jerimum, feijão-verde. Alimentos que nasciam com menos água, que davam sombra à terra, que não arrotavam metano. Comprou um quiabo, um inhame. Começou, num pequeno lote, uma horta pequena. Só para ver.

A terra, surpresa, respondeu. Com pouca água, mas com cuidado, o verde teimoso brotou. Não era o verde do capim, raso. Era um verde profundo, de raiz firme. Ele propôs algo na associação de pecuaristas.

— Que tal a “Terça da Raiz”? Em vez de boi na terça, comer o que nasce da terra?

Foi vaiado. Chamado de velho louco, traidor da tradição.

— Deus fez o boi para o homem! - gritaram.

Zé Baiano, calmo, respondeu

— E fez a terra também. E a gente tá maltratando a casa. Se a casa cair, cai em cima do boi e do homem. Não tem milagre que segure viga podre.

Alguns, poucos, viram a horta dele. Viram o verde. Lembraram dos pais, que também comiam mais farinha e feijão que carne nos tempos difíceis. Aos poucos, uma horta surgia aqui, outro canteiro acolá, criando uma virada de página, lenta, como o andar de uma tartaruga no sol.

Ana trouxe um presente: um pedaço de “carne” que não era de boi morto. Era feita em laboratório, de uma célula só. Coisa de outro mundo.

Fritaram.

O cheiro era parecido.

O gosto… quase.

Quase, mas não era. Faltava o sol, o pasto, a história. Zé Baiano balançou a cabeça.

— Isso aí é pra cidade, pro futuro. A gente aqui tem que achar o caminho no meio-termo.

Ele entendeu que a resposta não estava no extremo. Não era virar todos veganos da noite pro dia, coisa impossível para um povo que tem a carne de sol no sangue. Mas também não era continuar como se nada estivesse acontecendo, esperando o milagre que não vinha.

Era o meio-termo sábio. Era a terça-feira da raiz. Era criar menos boi, mas criar melhor. Era misturar a criação com a lavoura, como os avós faziam. Era respeitar o tempo da terra, que é mais lento e mais certo que o tempo do lucro.

Um dia, na feira, uma senhora comprou a abóbora dele e disse:

— Tá gostosa, seu Zé. Na terça fiz um caldo que nem precisou de carne. Encheu a barriga e deu energia, viu?

Era pouco. Era quase nada. Mas para Zé Baiano, naquele elogio simples, havia mais futuro do que em todas as preces por chuva. Era um passo. Um passo firme, dado aqui, no chão que ele conhecia.

Hoje é domingo. Ana veio da cidade. Zé Baiano acendeu o fogão de lenha. Espetou aquele cupim que poucos conhecem – uma peça menor, mais magra, de um boi criado solto e com capim nativo. Do lado, na brasa, ele pôs abóbora em rodelas, macaxeira e cebola grande.

O cheiro que subiu não era só da gordura que pingava. Era o cheiro da terra que resiste. Do acordo. Da memória que não se perde, mas que se adapta.

Enquanto comiam, o vento mudou. Trouxe um cheiro distante, não de queimada, mas de terra molhada. Nenhuma nuvem pesada no céu ainda. Talvez seja só umidade vinda do mar. Talvez seja o desejo. Mas Zé Baiano sabe, no fundo do seu novo saber, que a mudança não virá do céu.

Virá das mãos. Das mãos que plantam quiabo, das mãos que criam boi com respeito, das mãos que seguram os papéis da neta que estuda o mundo. Virá do entendimento, lento e doloroso como rachar de solo, de que somos parte da terra. E a terra, essa sim, é implacável. Não castiga. Apenas responde.

Ele mastiga a carne, saboreando cada fibra, cada memória. E no pedaço da abóbora doce e queimada, ele saboreia o futuro. Um futuro sem milagres. Feito de escolhas duras, de terças-feiras de raiz, de um equilíbrio retomado, fio a fio, no tear grande e cansado do mundo.

A salvação, se é que existe essa palavra, não estará num deus que desça das nuvens. Estará no suor que sobe da terra, carregado de nova consciência. E isso, pensa Zé Baiano, basta.

Basta e sobra.


Fim.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Contos ateus - O Dom

Contos ateus 


O Dom

    Após separação, por uma das crises de casamento com seu marido, olhares condenatórios da sua congregação, com um filho ainda pequeno e com ainda seus vinte anos, em plena mocidade, Clara acordou certa manhã com uma percepção diferente do que observava todos os dias: ela podia ver a conexão causal de todas as coisas. Não era uma visão mística, mas um entendimento preciso, quase matemático, que se desdobrava diante de seus olhos como diagramas luminosos e translúcidos. Via a cadeia de eventos que levara o café a sua xícara — da chuva que alimentara o cafezal, aos caminhões que o transportaram, ao movimento da mão do vendedor. Via as razões pelas quais seu gato miava (fome, tédio, lembrança genética), e porque o asfalto da rua rachara (expansão térmica, pressão de uma raiz, erro de engenharia). Era a rede da realidade, nua e crua, sem véus.

    Ela era uma teísta devota. Acreditava num Deus pessoal, que intervinha no mundo, que tinha um plano, que respondia preces. A primeira coisa que pensou, ao ver aquele fluxo de causas e efeitos, foi: Deus está me mostrando Sua obra. Chorou de gratidão. Mas algo a perturbava: em nenhuma das sequências que via havia um “elo sobrenatural”. Tudo era matéria, energia, tempo, acaso, necessidade. Mas ela se tranquilizou: “Deus age através das causas naturais”, repetia para si mesma.

    Naquela tarde, visitou o reverendo Lucas, seu guia espiritual. Contou a ele o que parecia, agora, ser um dom. Ele sorriu, emocionado.

    — Clara, é uma bênção! Você vê a mão divina na trama do mundo!

    Clara concordou, mas um pequeno nó se formou em seu estômago. Por que, naqueles diagramas, nunca havia uma seta apontando para “vontade divina”? Havia apenas setas entre coisas do mundo.

    O dom se aprofundou. Clara agora via não apenas cadeias causais próximas, mas remotas. Ao olhar para uma criança doente no hospital, viu a sequência: o vírus, a mutação genética, a viagem de um avião, um morcego em uma caverna, desmatamento, interesses econômicos, decisões humanas. A cadeia era complexa, mas inteiramente mundana. Ela orou fervorosamente pela criança. Na sua visão, a oração gerava uma reação psicológica nela — liberação de neurotransmissores, sensação de esperança — mas nenhuma linha de luz conectava sua prece a uma alteração no estado da criança, exceto a que ela mesma poderia fazer ao visitá-la ou doar sangue.

    A criança morreu. Clara viu a causa: falência múltipla de órgãos devido à septicemia. Viu os médicos lutando com remédios, os pais chorando. Não viu intervenção alguma. O reverendo Lucas disse:

    — Deus a levou para um lugar melhor. Seus caminhos são insondáveis.

    Clara aceitou a frase, mas seus olhos viam os caminhos: todos eram totalmente sondáveis, eram apenas biologia e física. Ela começou a fazer perguntas.

    — Reverendo, se eu vejo todas as causas, por que nunca vejo Deus agindo?

    Ele respondeu:

    — Ele age de modo invisível à ciência.

    — Mas eu não vejo com ciência — disse Clara — Vejo a própria estrutura da causalidade. Se Ele agisse, haveria um ponto de origem não causal, ou uma influência externa. Eu veria.

    O reverendo franziu a testa.

    — Talvez você não esteja interpretando corretamente.

    Clara decidiu testar se havia influência externa ou a invisibilidade de tal ser. Foi a um convento de freiras que faziam orações por doentes. Ela observou, com seu dom de encadeamento, as freiras orando. Viu a fé delas, a concentração, a energia emocional. Viu os doentes à distância. Durante semanas, monitorou as cadeias causais. As melhoras ou pioras correspondiam rigorosamente a fatores médicos, ambientais, psicológicos. Nunca uma linha de força saía da oração e atingia o corpo do doente sem passar por um intermediário físico conhecido (como a própria ação de alguém motivado pela oração).

    Ela orou por um sinal claro:

    — Deus, mostre-Se em minha visão. Interrompa uma cadeia causal. Cure instantaneamente esta planta murcha.

    A planta morreu. Ela sabia da evaporação da água, a deficiência nutricional. Tudo explicado. Clara sentiu um frio. Não era raiva contra Deus, era a percepção crescente de que sua visão era incompatível com a intervenção divina no mundo. Se Deus agisse, ela veria. Mas ela não via.

    Foi a um rabino, a um sacerdote católico, a um monge budista. Todos deram explicações que, em sua visão, criavam contradições nos diagramas. “Deus está fora do tempo” – mas se Ele afeta o mundo, há um ponto de contato, e esse ponto ela veria. “Ele age através da natureza” – mas então Ele é idêntico à natureza, e por que rezar para Ele e não para a natureza, afinal, tudo não vem dela? Tudo não é físico? Mesmo os nossos sentimentos não seriam possíveis sem haver um corpo? Um cérebro? “É um mistério” – mas Clara via que não era um mistério; era ausência.

    A crise atingiu o ápice quando seu próprio filho, Miguel, ficou gravemente ferido em um acidente. Clara, ajoelhada ao lado do leito do hospital, via as causas do acidente: um pneu gasto, uma distração do motorista, uma falha mecânica. Via também as possibilidades de recuperação: a cirurgia, a medicação, a resposta imunológica. Não via nenhuma linha divina. Ela implorou:

    — Deus, salve meu filho. Mostre que estou errada. Intervenha.

    Sua visão mostrava apenas os médicos trabalhando, os remédios agindo, o corpo do menino lutando.

    Miguel sobreviveu, após uma operação de doze horas. O médico disse:

    — Foi no limite, mas conseguimos, “graças a Deus”.

    Clara olhou para o rosto do médico, exausto, e viu toda a cadeia de treinamento, estudo, tecnologia, esforço humano. No entanto, parecia que o próprio médico não percebia isso, atribuindo todo seu esforço ao que, no final das contas era algo abstrato e se era abstrato, não era tangível e da mesma forma, se não podia se tocar, não podia tocar o outro, como seu filho ou mesmo o próprio médico. Viu também a sorte: um neurônio que não se rompera, uma artéria que não entupira. Acaso dentro das leis físicas. Nenhum milagre. Apenas o mundo funcionando.

    Naquela noite, Clara percebeu que seu teísmo não tinha mais lugar. Não era uma questão de fé versus falta de fé. Era que sua visão — que mostrava a realidade causal com precisão — não permitia que ela inserisse Deus como um elemento ativo. Se ela tentasse, os diagramas quebrariam, perderiam a coerência. A realidade era autocontida. Ela chorou não pela perda de Deus, mas pela perda da narrativa que a confortava. Mas sua visão não mostrava um universo sem sentido: mostrava um universo complexo, interconectado, belo em sua impessoalidade, terrível em sua indiferença, maravilhoso em sua inteligibilidade.

    Clara tentou uma, duas, três vezes, mas finalmente conseguiu entrar na faculdade.

    Anos depois, Clara era uma cientista respeitada. Seu dom a ajudou a fazer descobertas em física e biologia. Ela nunca mais viu um indício de ação sobrenatural. Ainda sentia a beleza do mundo, a profundidade do amor, a tragédia da morte. Mas agora entendia essas coisas como parte do tecido causal, não como sinais de um plano.

    Um dia, um jovem estudante teísta, sabendo de sua história, perguntou:

    — Mas professora, como a senhora explica o primeiro elo da cadeia? A causa primeira? Não seria Deus?

    Clara, com uma xícara de café na mão, olhou sua mesa, onde havia uma foto do seu filho, agora adulto, brincando num parque com seu neto, levantou a cabeça, olhou para o horizonte, onde via as linhas de causalidade se perderem no início do universo, no limite do que se conhece. Ela sorriu suavemente.

    — Vejo até onde a física permite. Para além disso, há apenas perguntas. Mas colocar Deus ali seria como colocar um ponto de interrogação e dizer “está resolvido”. Minha visão, meu dom, me mostrou que todas as questões dentro do mundo são respondidas pelo mundo mesmo. O “antes” ou o “porquê último”… Talvez sejam perguntas que não se tenha resposta, ou que a resposta, se existir, seja tão diferente de um deus pessoal que não faria diferença para nossas preces.

    — Mas então — insistiu o jovem — como a senhora vive sem significado transcendente?

    Clara olhou para a foto com seu filho, viu as linhas de afeto, memória, genética, proteção — todas causas naturais, todas reais, todas preciosas.

    — O significado — disse ela — não precisa ser transcendente para ser profundo. Ele está aqui, nas conexões que temos, na nossa capacidade de amar e entender, mesmo sabendo que somos parte de um fluxo cego e vasto. E sei que nem todos tem essa percepção de encadeamento que observo, mas estou fazendo minha parte, revelando o que dá para estudar e se aprofundar.

    Ela encerrou a conversa. Seu dom não lhe dera todas as respostas, mas lhe mostrara onde as respostas não estavam. E, para ela, isso era mais valioso do que qualquer conforto ilusório. O universo era silencioso, mas não vazio — estava cheio de causas, efeitos, histórias.

    E ela, Clara, era uma delas, e isso bastava.

Fim.


terça-feira, 2 de setembro de 2025

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Meu nome é Ana!


Com uma encantadora história sobre inclusão e respeito humano, o livro "meu nome é Ana!", da autora Adriana Mariano é um exemplo de como uma sociedade pode fazer mais e melhor para todos os seus cidadãos. A arte de Ruy Lima engrandece a obra com imagens que nos remete à nossa infância e às crianças atuais um estímulo para entrar, também no mundo das artes. Parabéns a Adriana, a Ruy e também a Ana, protagonista nessa grande aventura que é buscar seus direitos.




 

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Publicações / Press

Crânio e Total: Roteiro de animação


este é o roteiro do encontro de dois herois brasileiros, Cânio, Criado por Francinildo Sena e Total, criado por Lula Borges.
A história se passa em Natal, onde os dois personagens se encontram pela primeira vez.

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Extremoz em 6 lendas


Este livro apresenta um conjunto de seis lendas que foram pesquisadas ao longo de nossas vidas. Cada uma dessas lendas foi coletada em diferentes contextos: algumas foram transmitidas por contadores de histórias locais, outras foram lembradas por nossos próprios pais ou avós, que por sua vez as ouviram de seus parentes décadas antes.

É importante ressaltar que nossa pesquisa não se baseou em fontes escritas, como livros ou artigos acadêmicos sobre o tema das lendas. Em vez disso, buscamos diretamente as narrativas vivas que ecoavam em nossa comunidade: relatos de conhecidos, amigos e parentes. Dessa forma, pudemos reunir essa coleção de lendas, a qual algumas são amplamente conhecidas e transmitidas de geração em geração, enquanto outras são mais obscuras e menos difundidas.

Valor do exemplar: R$ 30,00 (com envio por correios)

Para ter o livro, basta entrar em contato por:

Twitter (X): @lulaborges
Bluesky: @lulaborges

Whats App: 84 9 8855-4059

E-mail: reverbo@gmail.com


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Descobrindo os sabores dos alimentos

Olá a todos aqui está uma nova produção de livro criado por mim e por Viviane Silva com uma história muito interessante sobre os sabores dos alimentos.

Um livro dedicado ao pai, mãe, tio, avó ou avô que queira ler para seus filhos, netos e sobrinhos sobre a importância da boa alimentação e, de quebra, sobre a alfabetização das crianças, pois a leitura é fluida e as letras são grandes, para os mesmos irem aprendendo, também, a ler.

Internamente, o livro é em preto e branco, o qual pode incentivar a produção artística das nossas crianças de forma simples e direta.


Valor do exemplar: R$ 20,00


Para ter o livro, basta entrar em contato por:

Twitter (Xuítter): @lulaborges

Whats App: 84 9 8855-4059

E-mail: reverbo@gmail.com


Existe também a versão online do livro pela Amazon.com com o Kindle.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

A bela e doce Cristal

 



Nasceu a coisa mais fofa do mundo. Filhote raceada de border collie e pastor alemão, foi doada para uma família que tinha apenas a mãe, a filha, Pam e o namorado da mãe, pois ainda não haviam se casado.

Assim que chegou aos braços de Pam, percebeu-se que tinha-se uma pedra preciosa. Assim começamos a história de Cristal. A cadela mais lembrada da família Teodósio, que estava muito triste, quando da chegada da cadela Cristal.

A família tinha outra cadela, Ninha, uma bassê preta, mas, devido ao câncer da avó de Pam e os perigos de bactérias, pelos e possíveis doenças extras, a mãe de Pam resolveu doar Ninha para sua irmã, tia de Pam. Infelizmente, a avó veio a falecer e, de repente, chega Cristal. Pequena, toda peluda, cheirosa, claro e com um lacinho na cabeça, como falei, a coisa mais fofa.

O namorado da mãe falou.

– Vai ser uma cachorrona grande.

A mãe.

- Como você pode saber disso?

O namorado.

- Já criei muitos animais e conheço coisas assim. Veja o tamanho enorme das patas dela.

A mãe

Não vai crescer tanto, é a coisa mais linda ela.

O namorado.

- Seja como for, não quero me envolver. Faz tempo que não crio animal nenhum, pois todos morrem e eu já sofri demais quando vi minha última cachorrinha morrer.



O tempo passou e realmente Cristal cresceu. Uma cadela grande com seus 15 ou 20 quilos. Os namorados começaram a viver juntos, Pam foi pra universidade e, por trabalhar apenas um turno, o namorado da mãe, agora marido, por trabalhar meio turno, acabou tendo que cuidar da cadela. Compra comida, passear toda tarde. Ele não queria se envolver, mas sempre se envolve.

Nova doença na família, a irmã do marido, com câncer, doou um cachorrinho para ele. E uma gata também, por sinal. O cachorro era um Poodle, número 2 (ou coisa do tipo, era um pouco maior que o menor deles). Ele já era velho e se ligou a Cristal, mas por ser pequeno, nunca conseguiram cruzar.

A irmã do marido faleceu e o casal resolveu castrar a gata, para evitar ciclos de novos gatinhos, o marido perguntou se iam castrar a cadela, a mãe ficou na dúvida, mas resolveram não castrar, pois o poodle era pequeno, aliás, o nome dele.

Ninha a cadela da irmã da mãe, teve uma cria e, dela, selecionaram um dos cachorros, Pingo, para conviver com os já presentes Pequeno e Cristal. Os dois eram terríveis. Primeiro o poodle queria bater no bassê, mas depois que este cresceu, o que o poodle podia fazer? Quase morreram várias vezes em brigas, quando Cristal estava no cio.

Pequeno morre em uma noite chuvosa na cidade de extremoz, Fica Pingo que, pequeno também, um pingo de gente, jamais iria cruzar com a grande Cristal, que já estava com seus 10 anos de idade.

O tempo passa, os passeios vespertinos continuam. Os dois cachorros conviviam bem e ninguém imaginava que iriam cruzar, mas cruzaram.

Cristal, já nos seus 11 anos de idade, bem avançada para uma cadela, ficou grávida e em um dos passeios entrou em trabalho de parto, ali mesmo, na rua. O marido pediu para um vizinho olhar ela enquanto ele ia em casa pegar o carro para levar a bichinha para ter o resto dos cachorrinhos em casa.

Saíram três cachorrinhos iguaizinhos a Pingo, mas ela não conseguiu mais colocar para fora os outros. Passaram-se 24 horas e todos nós em agonia esperando ela ter forças para ter os outros filhotes. Ela, como uma boa mamãe, amamentava os três que nasceram, mas em horas de contração, saia, andava, cavava, vomitava. Coitada da cadela. Ligou-se para veterinários e eles falavam que deveria aguardar 36 horas.

Ela não aguentou. Em pleno sofrimento, em uma madrugada, Cristal, deitada, ao lado dos seus filhotes, ainda vomitou mais uma vez e ali mesmo, na posição que estava, morreu, ainda dando leite para seus pequeno filhotes.

A família tinha um terreno em outra cidade e fizeram o enterro da bela Cristal em um dia de janeiro, muito ensolarado, mas também muito triste. O silêncio era o dono daquele dia. Os três, mãe, filha, marido, em silêncio foram ao terreno, em silêncio enterraram a doce cadela, em silêncio voltaram para casa.

E os cachorrinhos? Eles ficaram vivos. Estão tomando leite em mamadeira com leite específico para cachorros. São muito ativos. E o pai, o senhor Pingo, apenas observa, se aproxima dos filhotes, depois sai de perto, enquanto os bichinhos são alimentados. Será um bom pai, aparentemente.



Cristal, esta é uma homenagem à cadela que tanta alegria trouxe para a família Teodósio.

Fique em paz.


segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Publicações / Press

Extremoz em 6 lendas


Este livro apresenta um conjunto de seis lendas que foram pesquisadas ao longo de nossas vidas. Cada uma dessas lendas foi coletada em diferentes contextos: algumas foram transmitidas por contadores de histórias locais, outras foram lembradas por nossos próprios pais ou avós, que por sua vez as ouviram de seus parentes décadas antes.

É importante ressaltar que nossa pesquisa não se baseou em fontes escritas, como livros ou artigos acadêmicos sobre o tema das lendas. Em vez disso, buscamos diretamente as narrativas vivas que ecoavam em nossa comunidade: relatos de conhecidos, amigos e parentes. Dessa forma, pudemos reunir essa coleção de lendas, a qual algumas são amplamente conhecidas e transmitidas de geração em geração, enquanto outras são mais obscuras e menos difundidas.

Valor do exemplar: R$ 25,00 (com envio por correios)

Para ter o livro, basta entrar em contato por:

Twitter (X): @lulaborges
Bluesky: @lulaborges

Whats App: 84 9 8855-4059

E-mail: reverbo@gmail.com


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Descobrindo os sabores dos alimentos

Olá a todos aqui está uma nova produção de livro criado por mim e por Viviane Silva com uma história muito interessante sobre os sabores dos alimentos.

Um livro dedicado ao pai, mãe, tio, avó ou avô que queira ler para seus filhos, netos e sobrinhos sobre a importância da boa alimentação e, de quebra, sobre a alfabetização das crianças, pois a leitura é fluida e as letras são grandes, para os mesmos irem aprendendo, também, a ler.

Internamente, o livro é em preto e branco, o qual pode incentivar a produção artística das nossas crianças de forma simples e direta.


Valor do exemplar: R$ 15,00


Para ter o livro, basta entrar em contato por:

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Whats App: 84 9 8855-4059

E-mail: reverbo@gmail.com


Existe também a versão online do livro pela Amazon.com com o Kindle.