A igreja acabara com o teatro. Como podem falar da vida de um deus que não seja o próprio Deus em si? Tudo heresia. Teatro é proibido. Tantos profissionais foram expulsos do ambiente e entre eles, um velho artesão, de mãos calejadas que no fim das contas, não acreditava em nada que não pudesse ser esculpido em madeira ou misturado em um pote de tinta. Para ele, o mundo sempre foi uma questão de suporte e resistência.
Por isso, quando os homens de túnicas pesadas e olhares gélidos o procuraram naquela manhã de sol forte, que se diziam “mensageiros do alto”, o homem viu apenas clientes exigentes em busca de uma ilusão mais convincente. Eles falavam em “majestade”, “temor” e “presença divina”, mas o que realmente queriam eram cortinas que caíssem no tempo certo, incensos que escondessem o cheiro do suor humano e uma acústica que transformasse o sussurro de um homem comum no estrondo de uma autoridade invisível.
Eles sabiam que a religião estava perdendo público. As pessoas estavam começando a olhar demais para a terra, para a fome de seus estômagos, para as guerras criadas em nome de coisas totalmente abstratas e para o cansaço de seus próprios braços. Era preciso “reencenar” o sagrado. E ninguém entendia melhor de reencenação do que aquele velho artesão, que passara a vida criando florestas de papelão e reis de gesso para os teatros da cidade. O que os sacerdotes propunham era o maior espetáculo de sua carreira: transformar o templo no palco definitivo, um teatro que, para funcionar, precisava negar que era teatro.
O velho aceitou, não por fé, mas por uma curiosidade quase cínica. Ele queria ver até onde a mímica humana poderia ir se tivesse um orçamento ilimitado e uma audiência sedenta por consolo. Enquanto os padres falavam do Logos, da palavra que se faz carne, o artesão pensava na carne que se faz figurino. Ele sabia que o “sagrado” era apenas uma questão de iluminação: uma luz vinda do ângulo certo pode transformar um pedaço de pau em um objeto de adoração, assim como a falta de luz pode transformar o pavor do trovão em um deus vingativo.
Na primeira noite, enquanto desenhava as plantas do novo altar, ele olhou para o prato de comida sobre a mesa. O cheiro do guisado era real. O calor do prato era real. Não havia nada de divino ali, apenas o resultado da caça, do fogo e do trabalho.
Ele sorriu ao pensar que, em poucos meses, aquelas mesmas pessoas que comiam em silêncio estariam diante de sua cenografia, agradecendo a um fantasma abstrato pelo pão que suas próprias mãos haviam amassado. O espetáculo estava prestes a começar, e ele era o único que sabia onde ficavam as cordas que moviam os anjos.
O artesão passou as semanas seguintes mergulhado em tecidos que pesavam mais do que a consciência de um pecador. Tecidos que suprimissem a humanidade de quem os usava. Para o Sumo Sacerdote, ele escolheu um veludo carmesim, denso e impenetrável, adornado com fios de ouro que capturavam cada partícula de luz das velas.
Ele sabia que, quando aquele homem subisse ao púlpito, o povo não deveria ver o indivíduo que tropeçava nas palavras ou que sentia dores nas articulações ao final do dia. O objetivo do figurino era apagar o homem e destacar o Personagem. “O figurino é a armadura do dogma”, pensava o velho, enquanto costurava camadas e mais camadas de pano. No teatro, o figurino ajuda o ator a viver; na religião, o figurino ajuda o homem a desaparecer para que a abstração tome o seu lugar.
Enquanto trabalhava, ele recebia as visitas constantes dos teólogos, os “diretores” daquela peça eterna. Eles traziam manuscritos cheios de regras, o tal Logos, que tentavam ditar cada movimento. Queriam que o artesão construísse um biombo que escondesse o altar durante a consagração, criando um mistério técnico.
O velho ria por dentro. Sabia que o mistério era apenas uma questão de obstrução visual. Se você impede o público de ver a mecânica da cena, ele preenche o vazio com o milagre. É o truque mais antigo do palco: o que não se vê, teme-se; o que se teme, adora-se. Ele montou roldanas silenciosas e cortinas de fumaça feitas de resinas raras, garantindo que o “sagrado” tivesse o cheiro da distância e o aspecto do inacessível.
No fundo da nave da igreja, ele instalou o coro. Mas não era um coro para cantar a alegria da colheita ou a beleza do encontro, como ele via nas festas de rua. Era um coro treinado para a melancolia. As vozes deveriam ecoar nas abóbadas de pedra que ele mesmo ajudara a projetar para que o som não se dissipasse, mas que caísse sobre a cabeça dos fiéis como um peso físico. “A acústica da culpa”, ele batizou em segredo. Cada nota baixa deveria vibrar no peito das pessoas, fazendo-as sentir-se pequenas, minúsculas diante da vastidão do cenário.
O teatro da igreja não queria a catarse grega, aquela que limpa e liberta; ele queria a submissão, aquela que mantém o público voltando domingo após domingo, pagando o ingresso da esperança com a moeda do medo.
Uma noite, um jovem assistente perguntou ao mestre por que ele se dedicava tanto a um cenário que servia para enganar as pessoas. O artesão parou de polir o candelabro de prata e olhou para o rapaz.
– Não é engano, meu jovem, é mimetismo – respondeu. – O ser humano tem pavor do silêncio do universo. Ele prefere uma mentira bem encenada a admitir que o trovão não tem voz. Eu estou apenas dando a eles o espetáculo que eles pediram com o olhar. Se eles preferem agradecer ao ouro que eu poli em vez de agradecer às mãos que plantaram o trigo, a culpa não é do cenário. É do público que esqueceu que é ele quem paga o roteirista.
O assistente não entendeu, mas o velho voltou ao trabalho, ciente de que estava montando a maior gaiola estética já vista, onde o pássaro ficaria preso por vontade própria, admirando as barras douradas da sua própria imaginação.
A noite da inauguração chegou com o peso de um julgamento. O artesão não se misturou às autoridades, nem ocupou os bancos de carvalho que ele mesmo havia lixado até que brilhassem como vidro. Preferiu o fosso das sombras, um recanto escuro atrás de uma das colunas laterais, onde podia observar o rosto da multidão sem ser notado. O que viu foi o início de um fenômeno que ele conhecia bem dos palcos, mas que ali ganhava contornos aterrorizantes: a suspensão coletiva da realidade.
As pessoas no lugar de pensarem que estavam num prédio; acreditavam que atravessavam um portal invisível onde deixavam para trás sua autonomia. Ao cruzarem o umbral, o cheiro da resina e o som abafado dos passos no mármore agiam como um sinal hipnótico. O público estava pronto para ser enganado, porque a verdade do lado de fora — o sol escaldante, a colheita incerta, a finitude da carne — era insuportável demais sem o brilho do cenário.
O ritual começou com uma precisão que faria inveja a qualquer mestre de cena. O coro iniciou o lamento planejado, e as vozes, amplificadas pela geometria das abóbadas, pareciam descer do teto como se o próprio ar estivesse ganhando consciência.
O artesão observou um camponês na primeira fila. O homem tinha as mãos deformadas pelo trabalho na terra, unhas encortiçadas e a pele queimada pelo sol. Aquelas mãos haviam arrancado o sustento do solo seco, haviam lutado contra a sede e o cansaço. Mas, no momento em que o Sumo Sacerdote surgiu sob a luz focal que o velho havia projetado para parecer uma aura, o camponês escondeu as próprias mãos, envergonhado de sua humanidade. Ele se ajoelhou diante do veludo e do ouro, pedindo permissão para existir a um personagem que não passava de um homem comum vestido com as sobras da oficina do artesão.
A encenação atingiu seu clímax quando as cortinas de fumaça foram liberadas. O incenso, saturado de substâncias que entorpeciam levemente os sentidos, criou uma névoa que transformava o altar em uma ilha flutuante. O artesão viu o medo nos olhos das crianças e o êxtase no rosto dos velhos.
Ninguém ali agradecia à chuva, à semente ou ao vizinho que ajudara na aragem. Todos direcionavam suas preces para o vácuo dourado que ele havia construído. Era a antropomorfização completa: o medo humano do caos fora capturado, colocado dentro de um figurino suntuoso e batizado com o nome de Deus. O velho sentiu um calafrio. Ele percebeu que a religião era o único teatro onde o público acreditava que o vilão era ele mesmo e o herói era uma abstração que exigia sacrifícios reais em troca de promessas etéreas.
Do seu esconderijo, ele viu o momento da oferta. O povo, que mal tinha o que comer, entregava suas moedas para manter o brilho das velas e a manutenção do luxo que os oprimia. O “teatro vazio” estava funcionando perfeitamente. As repetições dos cânticos e as mímicas dos rituais haviam anestesiado a capacidade de percepção daquelas pessoas. Elas não viam as roldanas, não sentiam o cheiro da tinta fresca, não percebiam que o “milagre” era apenas o efeito de um ângulo de visão bem calculado.
O artesão apertou o próprio estômago, sentindo a fome daquela gente ser devorada pela imensidão do cenário. Ele percebeu, com uma amargura que nenhum vinho poderia apagar, que ele não tinha construído um templo, mas uma máquina de esquecimento, onde o homem adora a própria sombra e chama isso de salvação.
Ao final do espetáculo, quando a fumaça começava a se dissipar e o público se arrastava para fora, embriagado de culpa e consolo, o artesão saiu de sua sombra. Ele se aproximou do camponês que vira na primeira fila, aquele cujas mãos eram mapas de cicatrizes e terra. O homem ainda tinha os olhos úmidos, fixos no altar agora vazio. O velho tocou-lhe o ombro, sem o efeito da solenidade de um clérigo, claro, mas com a aspereza de quem conhece a matéria.
– É uma bela peça de madeira, não é? – sussurrou, apontando para o ídolo central. – Levei três meses para lixar o cedro e passar o verniz que lhe dá esse brilho sobrenatural. Se você olhar de perto, verá que a base tem um leve defeito, um nó que a tinta não conseguiu esconder totalmente.
O camponês recuou, como se tivesse sido atingido por uma blasfêmia física. Olhou para o artesão com um misto de pavor e fúria. Para aquele homem, admitir que o sagrado tinha um nó na madeira era admitir que sua própria dor não tinha um propósito divino. “Não fale assim”, sibilou o fiel. “O que vi ali foi a glória, não a madeira. Você fala como um homem que só enxerga o chão.” O artesão sorriu, uma expressão triste que vincou ainda mais seu rosto cansado.
– Eu enxergo o chão porque é dele que vem o seu pão, meu amigo. Eu enxergo a madeira porque fui eu quem a cortou. O que você chama de glória é apenas o efeito da luz que eu posicionei ali em cima, naquele ângulo de quarenta e cinco graus. Se eu apagar aquela vela, o seu deus volta a ser apenas um tronco inanimado.
A resistência do fiel era feroz. Ele não queria a verdade; queria o cenário. A verdade era que ele estava sozinho na lida, enfrentando a seca, enquanto o ouro da igreja era pago com o suor que faltava em sua própria mesa. A religião era o teatro que lhe permitia suportar o horror de sua própria insignificância. Se o artesão provasse que tudo era encenação, o camponês teria que encarar o vazio de sua existência sem o roteiro escrito pelos sacerdotes. “Você é um homem amargo”, disse o camponês, apressando o passo para a saída. “Prefiro acreditar no milagre da luz do que na sua mão que segura o fósforo.” O artesão observou-o partir, percebendo que o público era o cúmplice mais dedicado do diretor. Eles protegiam a mentira como se fosse a própria vida, porque, para muitos, a mentira era a única coisa que lhes restava.
O velho voltou-se para o altar deserto. Subiu os degraus de mármore, sentindo o frio da pedra através das solas gastas de seus sapatos. Ali, no centro do palco sagrado, o cheiro do incenso era sufocante. Ele tocou a túnica de veludo que o sacerdote deixara sobre uma cadeira. Por baixo do dourado, as costuras eram grosseiras; por trás da pompa, havia apenas pano e linha. Ele percebeu que a história de horrores que a religião contava era baseada em um paradoxo cruel: o homem criava o espetáculo para fugir de si mesmo, e depois passava a vida adorando a própria fuga.
Ele sentou-se no chão do presbitério, um intruso em sua própria criação, e começou a desamarrar uma das cordas que sustentavam o dossel. Por um momento, sentiu vontade de derrubar todo o cenário, de mostrar as tábuas nuas e os potes de tinta vazios. Mas sabia que, mesmo se o fizesse, o povo voltaria no dia seguinte para adorar os escombros, inventando um novo dogma para justificar a ruína.
Na manhã seguinte, o artesão não voltou ao templo; deixou para trás as ferramentas de polimento, os potes de purpurina e os rolos de veludo carmesim. Deixou também o pagamento que os homens de túnica lhe ofereceram; não queria que o suor de suas mãos fosse cúmplice do ouro que comprava o silêncio da razão. Ele caminhou para longe das abóbadas de pedra e dos ecos calculados, buscando o único lugar onde a representação não era uma máscara para o poder: a praça do mercado, onde a vida acontecia sem ensaios. Ali, entre o grito dos feirantes e o cheiro do suco fresco, ele viu o que o teologismo tentava esconder com tanta fumaça. Viu pessoas dividindo o pão, rindo de piadas obscenas e cuidando de feridas reais. Não havia liturgia, mas havia presença. Não havia deuses, mas havia homens.
Ele sentou-se em um banco de madeira tosco, um que não fora lixado por ele e que ainda guardava o calor do sol. Pediu um prato de comida simples, o mesmo que o camponês do dia anterior talvez estivesse comendo em sua casa humilde. Ao sentir o sabor do tempero e o peso da colher em sua mão, o velho compreendeu a maior das lições: a verdadeira ontologia não reside no que imaginamos, mas no que sentimos com os sentidos que temos.
A comida não era um “dom” vindo do teto da igreja; era o resultado da terra que insistia em brotar e da mão que insistia em colher. Ele fechou os olhos e, pela primeira vez em décadas, não imaginou um cenário. Ele apenas existiu. O teatro vazio da religião havia perdido o seu ator mais talentoso, pois o artesão agora preferia a verdade do grão de areia à mentira da montanha de gesso.
O sol começou a se pôr, pintando o céu com cores que nenhum de seus pigmentos conseguiria imitar. O artesão percebeu que a religião só existe porque o teatro é a nossa língua materna, mas que o erro foi transformar a mímica em mordaça. O homem adora o homem porque não tem outra escolha, mas o faz de forma torta, olhando para o altar quando deveria olhar para o lado. “Deus é o personagem que criamos para não termos que admitir que somos nós que seguramos o pincel”, pensou ele. Levantou-se, sentindo o corpo cansado, mas leve. Ele não precisava mais criar deuses de madeira para suportar o medo do silêncio; o barulho da vida real era música suficiente.
Ao caminhar de volta para sua pequena oficina, o velho passou em frente ao templo. Os sinos dobravam, chamando o público para mais uma sessão do espetáculo repetitivo. Ele não sentiu raiva, apenas uma profunda e calma clareza. Ele sabia que as cortinas continuariam subindo e descendo por muitos séculos, alimentadas pela história de horrores que os homens contam para si mesmos para não encarar o vazio. Mas ele, o cenógrafo que conhecia cada prego e cada farsa, estava finalmente aposentado. O espetáculo havia acabado para ele. O teatro agora era outro: era o palco da rua, a cena do prato na mesa e a representação honesta de ser, simplesmente, um homem entre homens. Sem deuses, sem mestres, apenas o brilho do sol real sobre a pele de quem, finalmente, abriu os olhos.

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