segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Contos ateus: A máscara que devorou o rosto




Ato 1: O Observador e a Anatomia do Medo

No vale de arenito, uma pequena tribo se desenvolvia. Em meio ao verde denso e à abundância de caça, um membro se destacava nesta nossa antiga história. Kaelo não era o mais forte do grupo, nem o mais veloz. Ele, na verdade, carregava uma pequena mácula no braço, que o impossibilitava de executar as mesmas tarefas que os outros membros, como o robusto Baruk desempenhava. Por estar quase sempre estático, contribuindo pouco com o esforço braçal dos seus, ele, de longe, começara a observar o comportamento alheio. Capturava seus trejeitos, seus modos de andar e de falar. Nas noites escuras, próximo à fogueira, ele os reproduzia, encenava graça e todos riam. Era o que restava quando a força bruta falhava: ele era o olhar.

Nesses primeiros dias da humanidade, os elementos da natureza aterrorizavam a todos. Mesmo os mais resistentes se enfiavam nas entranhas da caverna ao menor sinal de trovão; Kaelo agia da mesma forma. Mas, por se manter mais afastado dos outros, acabara por notar detalhes que os companheiros não conseguiam. Na parte mais externa da caverna, com o corpo tenso, mas os olhos fixos no horizonte, enquanto ouvia Baruk lá de dentro, uma série de sons guturais que significavam “A Ira”, “O Gigante”, “Escondam-se”. Para Baruk e para todos, o trovão era uma entidade viva, um ser invisível que esmagava as nuvens com punhos de pedra. Eles choravam e batiam no peito, uma reação instintiva ao barulho.

Ainda na parte mais externa da caverna, o coração de Kaelo batia forte. Ele sentia no seu peido, na ponta dos seus dedos a pulsação do que ele não entendia ser os batimentos cardíacos e nesse frenesi ele começa a perceber um padrão em cada estrondo vindo não se sabe de onde, mas certamente de cima. Ele viu o clarão — um chicote de luz prata que cortou o céu — e, em vez de se encolher, ele começou a ver que depois de algumas batidas fortes do seu coração.

Um, dois, três... sete. No sete, o estrondo veio, fazendo as pedras vibrarem sob seus pés. Novamente outro clarão. Sete batidas depois… Estrondo. Na terceira vez que ocorreu, ele não sentiu medo; sentiu uma estranha clareza, repetindo a sequencia, novamente, sete batidas. Ele percebeu que o mundo tinha uma engrenagem. O “Gigante” de Baruk era, na verdade, um intervalo de tempo.

Naquela noite, a chuva deu trégua e a fogueira central foi acesa. A tribo ainda estava trêmula. Kaelo observava o jogo de sombras que as chamas projetavam nas paredes curvas da caverna. Ele viu sua própria sombra se alongar, tornando-se um monstro que dançava ao movimento das chamas. Ele moveu o braço lentamente e viu a sombra obedecer. Com sua vivência na mímica dos outros, feita anteriormente, a semente do teatro brotou em sua mente: ele percebeu que a imagem na parede era mais poderosa que o seu próprio corpo de carne e osso.

Gritou, granindo sons irreconhecíveis e se levantou. O silêncio caiu sobre o grupo, quebrado apenas pelo estalar da madeira queimando. Kaelo não falou mais. Começou a caminhar ao redor do fogo, inclinou a cabeça, os olhos fixos em um ponto invisível no alto e começou a imitar o som do trovão com a garganta, um rosnado rítmico que crescia e diminuía exatamente como a tempestade que passara.

Baruk e os outros, antes sorridentes e mais tranquilos, lembraram da tempestade. Recuaram. Eles sentiram que o homem que “trouxera” a tempestade para dentro da caverna. Kaelo a estese do controle técnico. Ele sabia que estava atuando, mas via, pela primeira vez, que para quem assiste, a representação, naquele momento era a única verdade que importava. Ele era o pai da encenação e o palco, o chão de terra batida.



Ato 2: A Dramaturgia da Ausência

A morte era um fato mudo para a tribo. Quando um dos seus parava de respirar, o corpo era deixado para trás ou coberto com pedras, e o medo daquela “paralisia definitiva” pairava sobre o grupo por luas a fio. Kaelo percebeu que o medo nascia da falta de uma narrativa. O silêncio da morte era um vácuo que ele poderia preencher com imagens.

Certa manhã, um jovem chamado Lhuan não acordou, vítima de uma febre que o consumira há dois dias. Enquanto a mãe de Lhuan uivava de dor, um som animal, visceral e sem forma, Kaelo aproximou-se do corpo. Ele não chorou. Ele observou a rigidez dos dedos, a palidez da pele. Em sua mente, ele não via um espírito partindo, mas uma cena que precisava de um clímax.

Ao cair da noite, com a fogueira alta, Kaelo iniciou a sua primeira grande encenação sobre o invisível. Ele contou o que aconteceu com Lhuan, atuando o que aconteceu. Pintou o rosto com cinzas brancas, tornando sua face uma máscara de osso, entrou no círculo de luz da fogueira com passos lentos, simulando a febre do jovem, mas adicionou um elemento técnico: ele começou a lutar contra um inimigo que ninguém via.

Kaelo golpeava o ar, desviava-se de ataques imaginários e, finalmente, soltou um grito que não era de dor, mas de reconhecimento. Ele olhou para o topo da caverna e estendeu a mão, como se algo gigante o estivesse puxando. A plateia — pois era isso que a tribo havia se tornado — parou de respirar. O uivo da mãe de Luan cessou, substituído por um espanto hipnótico.

Naquela noite, Kaelo não deu conforto à tribo; deu um espetáculo. Ele transformou uma morte biológica em uma “viagem épica” do jovem que não mais voltaria para os braços de sua mãe. A estese era dele: o prazer de ver que, através do gesto e do ritmo, ele podia dar sentido ao caos. Mas o efeito no público foi o êxtase perigoso. Eles não saíram daquela peça sentindo-se mais vivos; saíram sentindo-se pequenos diante do “Invisível” que Kaelo acabara de criar com os seus músculos. O teatro havia gerado o mito, e o mito já começava a cheirar a religião.



Ato 3: A Queda da Deusa

Até então, a tribo era guiada pela figura da Mãe-Terra, representada por pequenas figuras de argila com ventres fartos que as mulheres moldavam. Era uma divindade do “aqui e agora”, ligada à colheita e ao sangue menstrual. Kaelo via nisso uma limitação. A Terra era democrática demais; todos pisavam nela, além disso, as outras deusas dominavam tudo. Era a deusa da mata, do rio, da cura. Para ter o controle total da narrativa, ele precisava de um Deus que estivesse onde ninguém pudesse tocar: o Céu.

O momento da transição veio com o parto de Mira. Kaelo sabia que Mira era fraca e que o nascimento seria difícil. Ele preparou seu veneno: uma mistura de ervas que, em doses pequenas, causavam letargia e confusão. Secretamente, ele misturou a erva na água que Mira bebia. O parto, que deveria seguir o ritmo da natureza, tornou-se um pesadelo de paralisia.

Enquanto as mulheres clamavam pela Deusa da Terra, Kaelo entrou na tenda. Ele não era um curandeiro; mas sabia que seu papel naquele palco seria a diferença entre o que os outros acreditavam e no que ele podia fazer acreditar. Mesmo que fosse algo abstrato e inventado do nada. Ele declarou que a Terra estava “irada” e que a Deusa de argila não tinha poder contra o “Sopro do Pai do Raio”. Sob a luz de tochas estrategicamente posicionadas para que sua sombra parecesse divina, ele realizou manobras físicas que conhecia — pressão no ventre e higiene — e “puxou” a criança para a vida.

Ele ergueu o recém-nascido, mas não o entregou à mãe. Ele o ergueu para o teto da caverna. “O Pai deu a vida!”, ele bradou. A mentira era perfeita. Ele sabotara a biologia para vender a teologia. Ao fazer isso, ele retirou a divindade do campo da subjetividade feminina e a jogou no campo da abstração masculina. A religião política acabava de nascer, e sua primeira vítima foi a verdade da terra.



Ato 4: A Caixa Preta e o Dogma

Com o tempo, Kaelo passou a ser admirado por alguns da sua vivência, não todos, mas já era suficiente para continuar suas ações de poder. Apenas da fogueira não era mais suficiente para suas performances; ele precisava de um cenário permanente. ordenou que a parte mais profunda da caverna fosse isolada por peles de grandes animais. Só ele e seus “ajudantes” — jovens que selecionou não pela força, mas pela capacidade de guardar segredos — podiam entrar lá. Ele criara, assim, os bastidores.

Lá dentro, ele aprimorou a técnica. Descobriu minerais que, lançados ao fogo, mudavam a cor das chamas para verde ou azul. Aprendeu que o eco da caverna podia ser manipulado se ele falasse dentro de uma bacia de pedra. O que a tribo ouvia do lado de fora não era mais a voz de um homem, mas um rugido metálico e sobrenatural.

O teatro utilitário, que servia para ensinar a caçar, fora completamente sequestrado. Kaelo estabeleceu o Dogma: a peça agora era fixa. Se alguém tentasse olhar por trás das peles de animais, era punido com o exílio ou a morte “em nome do Deus”.

Ele percebeu que a religião era, essencialmente, um teatro que se recusava a baixar a cortina. Enquanto nessa arte o espectador sabe que o ator vai tirar a máscara e ir para casa; no sistema de Kaelo, a máscara era colada ao rosto com o sangue do medo. Ele via os trabalhadores entregarem as melhores carnes para o “Deus” (que ele e seus ajudantes comiam em segredo) e sentia um prazer gélido. Ele não era mais um contador de histórias; ele era o dono da realidade alheia.



Ato 5: A Separação dos Mundos

A estrutura social da tribo mudou drasticamente. Kaelo não precisava mais caçar ou coletar. Ele era o Diretor, o Sacerdote Supremo. Ele criou a ideia de “Pecado”, do “erro” — que nada mais era do que o descumprimento do roteiro que ele escrevera. Se alguém questionava por que o Deus do Raio exigia tanto esforço, Kaelo encenava uma nova “tragédia”: um desabamento forçado ou um incêndio “divino” provocado pelos seus iniciados.

O Abstrato agora dominava tudo. O homem não trabalhava mais para si ou para a Terra; trabalhava para o “Herói Celestial”. Kaelo via a população sofrer, os corpos curvados pelo trabalho pesado de erguer totens e monumentos para o céu. Ele via a dor, mas não sentia empatia, pois em sua mente de ateu técnico, aqueles homens eram apenas figurantes em sua grande produção.

Ele começou a separar as pessoas: os “Puros”, que seguiam suas marcações de cena, e os “Ímpios”, que ainda mantinham laços com a antiga subjetividade da terra. O teatro, que nasceu para unir o grupo na mímica da sobrevivência, agora era a cunha que dividia a humanidade. A religião tornara-se o mecanismo de controle mais eficiente da história, pois transformava o escravo no vigia da própria corrente, acreditando que o peso do ferro era uma bênção.



Ato 6: O Eco das Eras

O tempo, para Kaelo, tornou-se uma linha contínua de repetições. Ele via o seu sistema se expandir. O que começou em uma caverna agora se preparava para dominar cidades e impérios que ele nem podia imaginar. Ele previa que seus sucessores usariam mantos de seda e coroas, mas o truque seria o mesmo: a luz, o som, o medo da morte e a promessa de um ato final glorioso.

Ele pensava nas religiões que viriam. O Judiaismo com sua lei de ferro e seu Deus invisível e ciumento — o ápice do Abstrato. O Catolicismo com suas missas que são, tecnicamente, performances operísticas de sacrifício. O Islã com sua submissão absoluta ao roteiro escrito. Até o Budismo, que em sua essência tentava fugir da dor, acabaria cercado de ritos e estátuas de ouro, aguardando a encarnação que jamais viria.

Todas elas tinham o mesmo DNA: o sequestro da estese. Em vez de permitir que o homem sentisse a beleza do mundo por si mesmo, a religião exigia que ele sentisse através do filtro do Sacerdote. O teatro fora transformado em um tribunal permanente. A população continuaria trabalhando até morrer, entregando sua energia para deuses que não passavam de personagens criados por homens como Kaelo, sentados em alguma caverna escura do passado, contando os segundos entre o raio e o trovão.


Ato 7: A Lanterna de Kaelo

Kaelo estava velho. Seus olhos, que viram o que ninguém queria ver, estavam cansados. Ele se sentou sozinho à beira da fogueira, agora um homem rico em posses, mas pobre em verdade. Ele olhou para a estatueta da Vênus de argila que ele mesmo quebrara há décadas. Ele a pegou e sentiu a textura da terra. Por um momento, ele sentiu a verdadeira estese: a conexão simples, sem máscaras, com a matéria.

Ele percebeu o tamanho do seu crime. A arte deveria ter sido a saída. O teatro deveria ter sido o lugar onde o homem ensaia a sua liberdade, não a sua prisão. Ele vira pessoas chorarem diante de suas encenações, mas não era o choro libertador da música; era o choro desesperado da servidão.

O sacerdote sussurrou para as chamas, mas não havia nenhum deus para ouvi-lo. Ele sabia que estava sozinho. “O sagrado é o túmulo da beleza”, pensou. Ele imaginou um futuro onde um homem pudesse ouvir uma música ou ver uma peça e sentir o êxtase da beleza sem a necessidade de se ajoelhar. Um mundo onde o palco fosse reconhecido como palco, e a vida fosse reconhecida como o único espaço real de existência.

Kaelo apagou a fogueira com um punhado de terra. As luzes se apagaram. No escuro total, ele deu o seu último comando para a posteridade, uma fala que ninguém ouviu, mas que ecoaria em cada templo construído pelo homem:

— A peça acabou, seus tolos. Por que vocês ainda não foram para casa? 

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