O Rosário que não se curvou
Uma das maiores mentiras espirituais que a religião criou foi a necessidade de se existir um rosário ou, nos termos cristãos do Brasil, o terço. Ele é uma ferramenta matemática, mas a religião, com sua negação à realidade e a sacralização do abstrato, modificou sua função. Esta alegoria é a história.
Há muito tempo, nas terras onde o sol parece cobrar um imposto sobre a vida, Al-Zahir não confiava em deuses para proteger seu sustento, embora dobrasse os joelhos para Shamash por puro costume de sobrevivência. Ele confiava no peso. No peso das pedras que carregava em um pequeno alforje de couro. Coisa que aprendera com seus antepassados, que guardavam as pedras em uma pequena barroca perto da entrada dos animais na cerca, mas que, com o tempo, resolveram usar em bisacos ou pequenas bolsas, pois assim, se saberia exatamente quantos animais tinham e as pedras não podiam serem roubadas.
Cada ovelha de sua criação tinha um duplo mineral. Uma pedra de quartzo, que ele chamava de xexo (seixo) para cada animal adulto; uma semente de tamarindo para cada cordeiro. Para não se confundir com cada tipo de seleção, primeiro ele separou os alforjes, mas depois percebeu que acabavam se misturando. Assim, ele furou cada pedra e cada semente, colocando um cordão de cânhamo. Forte, fino e resistente. Assim, se algum animal nascia, morria, era vendido, Al-Zahir poderia colocar ou retirar a pedra com facilidade, pois o fio aguentava os nós e passadas das pedras por si, além de, aparentemente, deixar o pastor mais tranquilo, ao ir passando as contas de pedras ou sementes nas suas mãos, com os tac!, tac!, tac!, das pedras batendo entre si.
Quando o sol se punha em um horizonte cor de cobre, Al-Zahir agachava-se na areia e fazia o deserto falar em números. Movia uma pedra para a direita:
— Esta é a fêmea que manca.
Movia outra:
— Este é o macho que lidera.
Idris, seu filho mais velho, já ajudava ao pai e conhecia o fio com contas, mas não entendia ainda a separação das pedras.
— Pai, por que furas as sementes?
— Para que o vento não roube a contagem, meu filho. A memória é volátil como a areia. O fio de cânhamo que passa por este furo é o que amarra a realidade à minha mão.
Idris sorria. Para ele, o colar que o pai enrolava no pulso e depois colocava na bolsa era um registro. Se um lobo levava uma ovelha, o pai retirava uma conta. Se uma cria nascia, ele furava uma nova semente com um estilete fino de bronze. Era uma aritmética tátil. Um mundo onde 10 menos 1 era uma perda física, um buraco no fio, uma dor no estômago.
Mas havia Malik, o mais novo. Malik, que vivia mais dentro da casa e ia mais vezes à cidade, para ajudar a mãe e aos tios com as compras e as idas ao templo de Shamash, via o pai segurando o cordão e fechando os olhos enquanto os dedos deslizavam pelas contas, o pai não estava contando animais. Estava sussurrando ao invisível.
— Bendito seja o deus Samash, que mostra as coisas boas ao meu pai — pensava.
Um dia, a tragédia veio sob o disfarce de homens armados. Bandidos das dunas levaram metade do rebanho sob o aço das cimitarras. Al-Zahir, envelhecido dez anos em uma única noite, sentou-se à porta da tenda, em silêncio e tristeza, desamarrou o cordão original, agora longo demais e frouxo. Com as mãos trêmulas, retirou as pedras correspondentes aos animais roubados. Sobrou um círculo pequeno, que cabia justo em seu pulso. Ele deixou o alforje de lado. Não era mais necessário. Seus animais, agora, cabiam em apenas duas voltas em sua mão.
Ele passava as poucas pedras entre os dedos e falava repetidas vezes, em tom baixo. “Vinte e duas... vinte e duas...”, murmurava. Mesmo assim, continuou trabalhando e cuidando do seu rebanho.
— Ele está pedindo a Shamash que os animais voltem — sussurrou Malik para o irmão. — Veja como ele acaricia as pedras. É uma súplica.
— Não seja tolo — respondeu Idris, com o rosto endurecido. — Ele está recalculando a fome. Ele está sentindo o peso do que lhe resta para saber se sobreviveremos ao inverno. Ele conta o que sobrou. Não há espírito ali, apenas subtração.
A natureza, porém, é indiferente tanto à lógica quanto à fé. Uma tempestade de verão, rara e violenta, rasgou o céu sobre o curral. Um único raio, um chicote de luz branca, atingiu o solo seco. O fogo e a descarga elétrica não escolheram: matou o que restava do rebanho.
Al-Zahir não se moveu. Encontrou os animais carbonizados sob a chuva e o cheiro de queimado que saia dos animais. Ele voltou para a tenda e sentou-se. Seus olhos ficaram vidrados, fixos no nada. Seus dedos, porém, não paravam. Eles giravam o pequeno rosário de pulso. As pedras batiam umas nas outras com um estalido seco. Tac! Tac! Tac!
Ele contava o vazio. Contava o que não existia mais.
Para Idris, o pai havia enlouquecido porque a conta não fechava. O zero era um número impossível de ser segurado entre os dedos. Para Malik, o pai estava em um transe místico tão profundo que já não pertencia a este mundo; ele estava tentando convencer o deus a trazer as almas das ovelhas de volta do reino dos mortos.
Alguns animais ainda foram criados após essa trajédia, mas Al-Zahir nunca mais deixou aquelas contas fora do seu pulso. Quando morreu, segurando o cordão com tanta força que os nós ficaram marcados na palma da mão, os filhos herdaram o conhecimento sobre o objeto. Mas este já estava partido na mente deles.
Idris pegou as pedras do pai e as levou para uma mesa de madeira. Ele não queria um círculo. Ele queria linhas. Ele esticou um fio paralelos em uma moldura de cedro. Na primeira linha, colocou seis pedras, cinco para a conta de uma mão e uma para contar com a outra mão as pedras que representavam unidades. Quando não dava mais para contar essas unidades, ele criou um segundo fio, da mesma forma, contando o que seriam as dezenas. Sua criação cresceu. Na terceira, ele criou as centenas. Ele percebeu que, se movesse uma pedra na linha de cima, ela valia por dez de baixo. Ele criou o Ábaco. Ele não precisava mais sentir o animal; ele precisava processar a grandeza e assim, ensinou a outros como fazer aqueles cálculos mais complexos também. Sua mente se tornou uma máquina de prever colheitas, impostos e rotas. Ele não buscava milagres, buscava a eficiência.
Malik, por outro lado, pegou a ideia do cordão circular e a expandiu. Ele buscou pedras mais bonitas, mais lisas, que acalentavam o coração ao toque, como os gregos faziam com suas contas de preocupação. Ele reuniu outros homens que, como ele, tinham uma lógica sagrada, mas cheias de medo.
— Meu pai falava com o céu através dessas pedras — dizia Malik aos seus seguidores. — Cada conta é uma oração. Se repetirmos o nome de Shamash 150 vezes, o que foi perdido voltará em outra vida.
Ele transformou a ferramenta de contagem em um grilhão espiritual. Enquanto Idris e seus aprendizes, com o passar do tempo, usava as pedras para construir cidades e sistemas que um dia seriam feitos de silício e eletricidade — as máquinas que calculariam o universo —, Malik usava as mesmas pedras para criar um ritmo que anestesiava a dúvida.
Ao final das contas, o mundo dividiu-se: de um lado, os descendentes de Idris e seus aprendizes, cujos ábacos se tornaram processadores computacionais de bilhões de cálculos por segundo; do outro, os de Malik, que ainda giram círculos de pedra, esperando que a repetição de um número em uma oração, mude a realidade que eles se recusam a medir.

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